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Práticas Sociais das Mulheres da Floresta: historicidade e conceituação

Por:
Dra. Iraildes Caldas Torres
Foto: Divulgação
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Dra. Iraildes Caldas Torres
A vivência das mulheres na Amazônia compõe um extraordinário repertório de cantos que fazem pulsar uma poética da floresta, com seus trabalhos e práticas, que nos permite pensar numa estética autopoiesis. Esses conceitos precisam serem bem compreendidos para que possamos aplicar com propriedade em nossas pesquisas. 

O conceito de trabalho é ontológico. O trabalho sempre existiu na história da humanidade. É por meio dele que homens e mulheres se realizam como seres históricos e sociais no sentido ontológico. É a partir da industrialização que ocorreu a expropriação do trabalhador tanto de seus meios de produção que lhe permitiam promover as suas necessidades materiais, quanto em sua humanidade. Para além dos aspectos econômicos e da atividade lucrativa, o trabalho é fonte de realização do ser social. A centralidade do trabalho é um conceito de Marx (1844) e emerge esta discussão em meio à Revolução Industrial, ao passo que a ontologia do trabalho é parte intrínseca da pessoa do trabalhador, do seu ser.

O conceito de práticas sociais está voltado para a construção dos sujeitos e atores sociais em seus contextos de interação. As práticas sociais estão mergulhadas em culturas ancestrais. Elas promovem mudanças profundas e transformadoras na vida das mulheres que as desenvolvem e na vida das pessoas com quem elas tem contato ou que elas assistem. 

As práticas sociais das mulheres da floresta é um conceito construído por nós aqui na Amazônia. Está associado aos saberes das mulheres anciãs, à sabedoria ancestral. Esses saberes estão assentados numa matrística, que, conforme Maturana (1998), designa uma cultura na qual mulheres e homens podem participar de um modo de vida centrado em cooperação não hierárquica.
As práticas sociais das mulheres da floresta são vistas dentro do ecofeminismo que, na Amazônia evoca o princípio feminino da Mãe-Natureza presentificado na tríade terra/floresta/água. Os andinos centraram na Pachamama que é a Mãe-Terra. Nós, na Amazônia, evocamos também a Pachamama, mas sem esquecermos das mães da mata e das águas.

 O princípio feminino não é o sagrado feminino que é um arquétipo. O princípio feminino é vivente, pulsa nas veias da terra, da mata e das águas. Ele norteia a alma da natureza e a alma das pessoas sensíveis à natureza: as mulheres que buscam nesta matrística beber na sabedoria ancestral para ajudar as pessoas. E a sabedoria ancestral está entrelaçada com a natureza. São mulheres parteiras, benzedeiras, oleiras, mulheres da artesania, da agroecologia, melipolinicultura dentre outras.
Essas mulheres possuem uma mística da floresta, desenvolvem uma poiesis que lenteia no seu próprio viver, nos seus modos de vida, no cotidiano vivido, no coração da mata amazônica. A natureza intuitiva da poética com seu verniz ecológico do ato de viver a vida, está presente no mundo prosaico da selva. E, as mulheres se embebem dessa mística para desenvolver a sua autopoiesis.

A autopoiesis não é a poética. É a práxis, é a autoprodução. Assim como os ecossistemas produzem e se reproduzem, as mulheres também produzem e reproduzem a si mesmas, em meio à sabedoria ancestral. Elas herdam das cepas de suas mães, avôs, bisavôs, os saberes e os põem em prática, para transformar, curar, acolher, transformar... fazendo brotar novas vidas, reproduzindo a esperança, co-criando novas perspectivas do viver, fazendo vibrar a vida em alta potência. A poética diz respeito à forma leve como se vê a vida. A poética Amazônica é perceptível nas cores dos pássaros, na sua revoada, nas campinas, na árvore que chora, no canto da Cotovia, do Uirapuru, na chuva que acalma a alma, nas cachoeiras, corredeiras, nos igarapés, na sumaumeira, castanheira, na terra que se abre para dar alimento com seus frutos, raízes e fertilidade autoreprodutiva. 

A autopoiesis é a forma como as mulheres se constroem em meio a esse mundo poético da Amazônia. Há um entrelace inteligente e criativo dessas mulheres que, se autoconstroem, na autopoiesis da vida em meio à poética vibrante de uma Amazônia que se abre, ao ato de viver com leveza.

O conceito de entrelaçamento não significa criar laços ou simplesmente se juntar em teia, como diz  Capra (1984) ou em linha como sugere Tim Ingold. O entrelaçamento é o reconhecimento das matrísticas ancestrais, significa se render à sabedoria das velhas, das verdadeiras mestras da vida, das bruxas, daquelas que ensinam na ritualística da experiência. É um entrelace místico, de amorosidade e de afetividade com a terra, a floresta e os rios. 

Espero poder ter contribuído para elucidar os conceitos que venho desenvolvendo ao logo de mais de duas décadas de pesquisas. 

Iraildes Caldas Torres - Doutora em Antropologia Social - Professora Titular da Universidade Federal do Amazonas.
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