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Amazônia humilhada!

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Por:
Jacob Cohen
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Ultimamente tenho assistido nas grandes mídias e mesmo nas redes sociais, exaustivas críticas a Belém, onde deverá ser realizada a COP 30, reunião da maioria dos países do mundo, liderada pela ONU, com o objetivo de discutir os efeitos climáticos sobre o planeta. A maioria das críticas fala das poucas condições que a cidade dispõe para um evento desse porte. Relatam a favelização da cidade, do menor IDH, falta de saneamento básico, além de poucos hotéis e o preço exorbitante das diárias. Esses meios de comunicação reportam, segundo eles, os países que já desistiram da reunião pelos motivos acima. Verdadeiro deboche a uma das mais bonitas cidades da região.

Vamos à verdade. Na Região Amazônica, habitam hoje em torno de 25 milhões de pessoas que, mal ou bem, ajudaram a preservar essa imensa floresta, a maior floresta tropical do mundo. Para cá vieram os primeiros colonizadores europeus, imigrantes nordestinos no período áureo da borracha, imigrantes asiáticos pós- guerra, o negro escravizado que juntamente com etnia indígena formam a maioria das nossas populações.

Esses mesmos países que criticam as condições da cidade de Belém, se desenvolveram destruindo suas florestas e seus mananciais, hoje financiam ONG'S no Brasil para impedirem a utilização da nossa floresta, mesmo o mundo já tenha tecnologia para a sua utilização e preservação. No entanto, o governo foi adepto da intocabilidade da Amazônia, uma política perversa que condenou o povo amazônico à condição de pobreza e miséria.

A Amazônia é uma região rica em recursos da sua fauna e flora, destacando os recursos minerais do subsolo, sua vasta floresta com recursos farmacológicos e cosméticos e seus grandes rios e lagos repletos de peixes.

O primeiro fracasso econômico veio a partir dos meados do século XIX, quando a Amazônia descobriu a borracha, produto áureo do extrativismo da época. No início a euforia! Só nos últimos dez anos daquele século, a exportação da borracha amazônica atingiu a cifra corrigida de mais de 2 bilhões de libras esterlinas e em 1910 chegou a um só ano a fantástica soma de 1,3 bilhões de libras. Com essa dinheirama toda, os governos da época conseguiram mudar a cara de Belém e Manaus, com construções modernas e saneamento básico por conta de empresas inglesas. Era tanto dinheiro que, a princípio, foi usado para modernizar a cidade do Rio de Janeiro. Sem o governo perceber, as sementes do látex foram contrabandeadas para a Malásia que, ao contrário da Amazônia, iniciou um plantio organizado com produção bem maior que o Brasil, o que ocasionou o declínio do ciclo da borracha na Amazônia, cuja exportação caiu em 1932 para meros 7,3 milhões de libras, a miséria, o subdesenvolvimento e as doenças infecciosas voltaram incidir numa população já vulnerável.

Eclode a segunda guerra mundial e aumenta a demanda da borracha nativa e o Brasil num esforço de guerra reativa seus seringais, embrenhando seus agora "soldado da borracha" para os antigos sítios de produção látex, já que a produção da Malásia era vendida apenas aos países do eixo ( Japão, Itália e Alemanha). Havia interesse dos países aliados, inclusive os Estados Unidos da América financiou o Banco da Borracha, sediado em Belém. Não durou muito tempo e essas regiões tornam- se os locais de maior prevalência de doenças infecciosas da região. E assim a riqueza Amazônia a região amargou pela primeira vez a perda econômica considerada esvaiu-se pelo ralo promissora. Tudo por falta de planejamento e organização dos governos e agentes econômicos da época. A partir da segunda metade do século XX, seguiu-se um período de pujança econômica, por conta do extrativismo de castanha, juta, pau rosa, peles de animais silvestre, pesca de arrastão pecuária e etc que foi dando lugar a políticas de repressão dos órgãos de controle ambiental, resultando na depressão econômica a partir dos anos 1980. A repressão foi tão exagerada que até a caça para a alimentação dos ribeirinhos foi proibida, e considerada crime inafiansável. Esse fato contribuiu enormemente para o êxodo rural, aumentando a favelização das grandes cidades.

O Estado do Pará ainda usufrui de suas riquezas, mesmo penalizado pelos órgãos ambientais. Mas ainda muito pouco, comparando as riquezas que guardam em seu sub-solo, como minerais nobres - a bauxita, ferro e terras raras. No Estado do Amazonas, foi pior ainda. Nossa floresta conta com 97% preservada, em troca por uma instituição chamada Zona Franca de Manaus, que trouxe indústrias de montagem que beneficiam mais a economia da região sudeste. Hoje Manaus é considerada uma cidade Estado com mais da metade da população do Estado, e a grande parte de seus bairros desorganizados por invasão, sem nenhum saneamento básico, enquanto o interior amarga o atraso e o subdesenvolvimento, com apenas 19% do PIB do Estado.

Enquanto isso, no extremo norte do Amazonas, adormece a maior jazida do mundo, da liga metálica - Nióbio, avaliada em 5 trilhões de dólares. No paredão que integra o pico da neblina alberga um tipo de granito mais caro do que o mármore de Carrara. Mas, a população que corresponde a 90% de etnias indígenas- sofre com o alcoolismo e o sedentarismo, elevando a taxa de suicídio, quatro vezes maior que numa população geral. No baixo Amazonas, temos outra grande jazida de Potássio ainda não explorada por falta de licença ambiental, há anos. No rio que dá acesso a cidade de Nhamandá existe uma população de crocodilos estimada em mais de dois milhões de unidades. É frequente acidentes com pessoas que perdem membros ou morrem mordidos por esses animais, essa superpopulação consome grande quantidade de peixes já se observando escassez na pesca. A única  estrada que liga o Estado do Amazonas ao Brasil a BR 319, apesar dessa estrada já existir, não é permitido seu asfaltamento, em nome de uma política retrograda e que cerceia o direito constitucional de populações de ir e vir, dentro do seu próprio país.

Concluindo, porque não se cria mecanismos para a exploração desses recursos, com manejos sustentáveis, no local das jazidas, em forma de cooperativas, beneficiando as populações locais? Porque não se institui temporadas de caça aos crocodilos, como existem em muitas partes do mundo, além de fornecer renda as populações ribeirinhas, ajuda a reorganizar o equilíbrio ambiental? Porque não é permitido o asfaltamento da BR 319 que facilitaria o escoamento dos bens produzidos na Zona Franca de Manaus? Porque 90% das ONG'S que atuam no Brasil, estão na Amazônia? Será que só existe pobreza aqui? E o Nordeste brasileiro é mais rico que a Amazônia. São perguntas que não calam, enquanto a Amazônia continua sem saneamento básico e com a população abaixo da linha da pobreza. Só para citar esses exemplos, seriam suficientes para dotar Belém e, Manaus de condições de infraestrutura, capazes de receber eventos grandiosos sem serem debochadas pela maioria da imprensa, parcial, vendida e preconceituosa.
O autor foi Vice-Reitor da Universidade Federal do Amazonas - UFAM (2017- 2021); Professor Titular do Departamento de Clínica Cirúrgica da Faculdade de Medicina da UFAM; Doutor em Medicina (Oftalmologia) pela Universidade de São Paulo de Ribeirão Preto; foi Chefe do Serviço de Oftalmologia do Hospital Universitário Getúlio Vargas da UFAM (2010- 2013); Vice-Diretor da Faculdade de Medicina da UFAM (2013-2016); Publicou um livro de Oftalmologia e outros cinco capítulos de livros didáticos na área de Oftalmologia e Medicina Tropical; 97 trabalhos em periódicos nacionais, internacionais e anais de eventos; 51 apresentações de conferências e palestras; foi distinguido com os seguintes títulos honoríficos: 1993 - Cidadão Benemérito de Parintins; 2002 - Medalha da Ordem do Mérito Legislativo, ALEAM; 2005 - Prêmio CBO Região Norte; 2008 - Medalha de Ouro Cidade de Manaus, CMM; 2011- Medalha Jacques Tupinambá/Santa Casa de São Paulo; 2014 - Cidadão Benemérito de Manaus, CMM; 2014 - Medalha Ruy Araújo, ALEAM; 2015 - Medalha de Ouro Moacyr Álvaro, UNIFESP; 2018 - Medalha do Mérito Tamandaré, Marinha do Brasil; 2020 - Medalha do Mérito Naval, Marinha do Brasil.
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